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A SAGA DE MAXIMILIANO*
AUTOR: Danilo Andreato
e-mail do autor: andreato@bol.com.br
Acadêmico
de Direito da UEFS (Feira de Santana/BA)
Integrante do Projeto Ministério Público Vai às Ruas
Março de 2001
A SAGA DE MAXIMILIANO*
Danilo
Andreato
Resumo:
Sem o fito de firmar verdades, tampouco de engrossar a fileira de materiais
utilizados em pesquisas e estatísticas, A
saga de Maximiliano traz à baila a história de um homem que, apesar de um
padrão de vida satisfatório, tanto do ponto de vista financeiro quanto do
afetivo, registrou seu nome no livro dos marginalizados sociais, ingressando,
por assim dizer, no mundo do crime.
Palavras-chaves: Realidade social. Criminalidade.
“Ser
criminalista é devoção,
arrebatamento,
desprendimento.”
(Paulo
José da Costa Jr.)
Quarta-feira, 04 de outubro de 2000. Camisa amarela, cabelo bem cortado, cor melanoderma (negro, em outras palavras), olhos perdidos em busca de um horizonte, vagando em meio a tantos questionamentos.
É Maximiliano, oriundo de uma família de classe média, residente, desde seu nascimento, numa cidade do interior da Bahia. Seus pais (ele, ligado ao comércio de madeira; ela, dona de casa, de forte formação religiosa) não lhe deixavam faltar nada, tanto no âmbito afetivo quanto no material, circunstâncias contidas nas palavras do próprio Maximiliano. Seus irmãos, 2 homens e 3 mulheres, o mais velho no auge da juventude e o caçula rompendo a adolescência (Maximiliano é o antepenúltimo filho na linha cronológica), de igual forma, mantinham um bom relacionamento familiar com ele.
Seu
pai, indivíduo honesto e trabalhador, propiciava à família uma vida digna de
classe média, com temporadas de veraneio, viagens ao longo do ano, etc. Sua mãe,
respeitável senhora de cultura mediana e de religiosidade intensa, não deixou
de lhes transmitir ensinamentos bíblicos, sempre a convidar seus filhos para
participarem da congregação à qual fazia – e faz – parte. Maximiliano,
entretanto, nunca foi muito afeito à idéia de freqüentar Igreja e manter
compromisso religioso. Com seus pais sempre manteve uma convivência sem maiores
problemas, como qualquer outro filho.
Nascido
no final da década de 70, Maximiliano estudou até a 5.a série,
interrompendo sua vida escolar, esta sempre em colégio privado, quando contava
17 anos de idade. “Só ia pra escola
brincar. Não tinha planos pra o futuro”, frisou. Nunca foi dado a
assistir filmes, ler livros, quando muito lia jornais. Não vivenciou a experiência
de votar, até porque não possui título de eleitor. Deixado o ambiente
estudantil, trabalhar com o pai foi o caminho seguinte a ser percorrido, diante
da falta de interesse em permanecer trilhando pelos estudos.
Com
dinheiro no bolso, viajar aos finais de semana com os amigos, os quais dispunham
de carro próprio (eram classe média também), curtir festas, namorar bastante,
tudo isso fazia parte do cotidiano de Maximiliano. Beber, tudo bem, mas usar
drogas não. Este era o seu lema.
Por
volta dos 20 anos, ao saber de uma tentativa de invasão em sua residência,
comprou uma arma de fogo para defender a si mesmo e a sua família. Acredita não
ter sido influenciado por nenhum amigo para vir a adquirir a arma, pois seu
intuito era o de, apenas, proteger sua mãe que ficava muito em casa e, na
maioria das vezes, sozinha. Salienta ele que, malgrado tenha comprado um revólver,
até a presente data, jamais efetuou
um disparo sequer.
Nesse
sentido, segundo Maximiliano, foi pela primeira vez detido quando portava a
referida arma, sendo liberado em seguida. “Acho
que fui denunciado por alguém do bairro que devia ter inveja, porque eu tinha
revólver e os outros não”, disse. Muito embora tenha feito tal
assertiva, asseverou não possuir inimigos, mas que deveria existir alguém que
não gostasse dele. Já chegou, inclusive, a ir a algumas festas armado, não
utilizando, porém, o revólver.
Ao
completar 21 anos, recebeu do pai, como presente, devido à chegada da
maioridade, uma moto zero quilômetro, um grande sonho para muitos, todavia,
realizado por poucos. A moto lhe serviria como mais um trunfo em seus fins de
semana de agitação.
Apaixonado
pela namorada que mantinha há pouco mais de um ano, Maximiliano, então aos 22
anos, saiu de casa para morar com ela, que estava gestante, aguardando uma filha
sua. Foi pai antes do fatídico dia que marcou, de forma ímpar, a sua existência.
Em
certo dia do mês de agosto de 1999, fazendo valer os misticismos e superstições
de mau presságio que pairam sobre o mencionado período, ao sair em companhia
de quatro amigos, dois deles menores, foi convidado por estes, consoante
entrevista, para ir a uma cidade próxima da que reside. Maximiliano,
inopinadamente, aceitou. Conforme faz questão de ressaltar, não sabia que ao
chegar nas cercanias de um hotel, localizado numa das principais avenidas da
cidade, aconteceria o que passa a relatar, ipsis verbis:
“Dos
meus quatro amigos, três tavam armados. Aí a gente, na frente do hotel, tomou
o carro do rapaz que tava dirigindo. Eu não tava armado, então só fiz
acompanhar, e entrei no carro. Fui sentar no banco de trás. Os que fizeram
quase tudo eram de menor. Foi aí que a gente partiu pra outra cidade (S.), mas
quando a gente foi de S. pra B., tinha uma blitz na estrada. O cara que tava
dirigindo tentou fazer a volta, mas aí a policia mandou bala, matando um amigo
nosso. Aí todo mundo se rendeu”.
Detido
em S., Maximiliano e seus amigos, exceto os menores, de acordo com suas
palavras, foram denunciados como incursos nas penas dos arts. 157, § 2.º, incs.
I e II, e 288, parágrafo único. Em setembro de 1999, foi transferido para uma
penitenciária, tendo sido condenado a 5 anos e 4 meses de reclusão em regime
semi-aberto.
Após
um ano, um mês e dois dias recluso (contagem feita por ele próprio,
ressaltando os dias), Maximiliano define a prisão como um inferno. Diz ser hoje
leitor da Bíblia, além de frequentar cultos religiosos (há, no próprio
estabelecimento prisional, uma capela mantida pela Igreja Universal do Reino de
Deus). “O mundo é enganador”, diz
ele. Ratifica isso quando se recorda que há pouco tempo tinha tudo: mulher,
casa, moto, amigos, uma família, uma vida. Hoje, depois de ter “caído” –
expressão que se habituou a utilizar –
a mulher o deixou, sua casa tem sido a cela que divide com outro interno,
e amigos, lá dentro não existem.
Espantados.
Assim ficaram os familiares de Maximiliano, ao saber do crime. Diziam eles que não
havia necessidade. Por quê? Era essa a pergunta que lhes vinha à mente e
ecoava ao longe. De igual forma, essa é uma de nossas perguntas.
Ao
ser indagado pelos seus pais por que fez isso, ficou emocionado, não
conseguindo conter as lágrimas, embargando a voz que teimava em não sair.
Maximiliano
afirma já ter pendurado as chuteiras. De maneira interessante, crê que tudo
ocorreu dessa maneira por nunca ter passado por dificuldades na vida, por sempre
ter conseguido aquilo que queria. Dinheiro, mulheres, moto. “Vivia só na vida boa. Por isso que tô nessa”, salienta. No
tocante aos seus amigos, poucos enveredaram para o mundo do crime.
Desmistificando
o que se propugna por aí, mesmo possuindo somente o 1.º grau completo,
Maximiliano fala com muita propriedade acerca da discriminação existente
contra os pobres, dos privilégios concedidos aos ricos, mais precisamente os
vulgarmente conhecidos como “filhinhos-de-papai”, que cometem atrocidades,
se drogam, comercializam ilegalmente carros, traficam drogas e entorpecentes,
mas, ao chegarem na penitenciária ou na delegacia (quando chegam), são
liberados imediatamente. Isso sem se falar nos criminosos de colarinho branco
que assolam o País sem que nada lhes aconteça. Altamente lúcido você,
Maximiliano.
Na
sua forma de entender, a prisão não recupera ninguém. Olhando ao redor da
sala em que era realizada a entrevista, obrigando-me a percorrer com os olhos e
sentimentos cada canto daquele recinto, o qual nos separava por uma grade,
destacando, por conseguinte, os nossos mundos, indagou-me, secamente: “você acha que isso aqui conserta alguém?”. Segundo
Maximiliano a prisão piora o indivíduo, pois aprende-se mais lá dentro,
transformando-se, assim, numa verdadeira escola. Com muita convicção,
asseverou:
“Quem
tem família se arrepende, pensa em mudar. Quem não tem fica mais revoltado, só
maquinando o que vai fazer quando sair daqui, e aí continua”.
Diferentemente
de outrora, Maximiliano pensa no futuro. Quer trabalhar quando sair da prisão
(já tem emprego certo numa empresa, oferecido por um parente), cuidar de sua
filha impúbere (sonha em vê-la exercendo a medicina) e reconstruir a vida.
Acredita que em breve sairá da instituição prisional, em face de boa conduta
mantida, almejando, dessa forma, o livramento condicional.
Observar
que todos que lá se encontram recolhidos contam o passar dos dias com ansiedade
não é figura inédita. A contagem dos dias serve como alento, como paliativo
para diminuir, em doses homeopáticas, o tempo de permanência naquele lugar.
Fatalmente a frase do escritor Roberto Shinyashiki deve ajustar-se-lhe como uma
luva: “a vida é uma seqüência de dias
vazios que precisamos preencher”.
Com
a prisão, Maximiliano percebeu quão importante é a liberdade, essa que nós
muitas vezes não conferimos o devido valor. Análise basilar para ele é a
diferença existente entre as pessoas, “umas
aprendem rápido, outras não”, e, em virtude disso, as chances devem
continuar sendo oferecidas.
Maximiliano
afirma que seu coração clama por uma nova vida. Uma vida em que possa ganhar
dos homens algo que Deus lhe concedeu e os homens, por seu turno, lhe privaram:
A LIBERDADE.
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*Maximiliano
é nome fictício.
Texto
elaborado a partir de entrevista concedida por Maximiliano ao autor, em decorrência
de atividade de extensão da disciplina Criminologia, ministrada pela docente
Marília Lomanto Veloso.
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